A Versa Engenharia Ambiental e Odair José Mannrich, seu fundador, acompanham de perto uma das questões mais sérias do Brasil: enquanto o país produz mais de 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano, segue enterrando boa parte desse material em aterros sanitários, desperdiçando um potencial energético que nações europeias e asiáticas já exploram há décadas. A primeira usina de recuperação energética de resíduos do país, localizada em Barueri, no interior de São Paulo, ainda não entrou em operação plena. A questão revela um atraso estrutural que, em 2026, começa a incomodar gestores públicos, investidores e especialistas do setor ambiental.
O tema ganhou novo impulso com o avanço das metas estabelecidas pelo Plano Nacional de Resíduos Sólidos, o Planares. O projeto prevê 994 megawatts de potência instalada provenientes da recuperação energética de resíduos até 2040. Para chegar lá, o país precisaria de aproximadamente R$ 40 bilhões em investimentos ao longo das próximas décadas. Um valor expressivo, mas que colocaria o Brasil no radar de grandes grupos internacionais interessados no setor. A falta de arcabouço regulatório, experiência técnica consolidada e estrutura de projetos adequada para viabilizar esse tipo de empreendimento.
O que está em jogo não é apenas energia limpa. É a possibilidade de reformular a forma como o país enxerga o descarte, transformando aquilo que hoje representa um passivo ambiental em ativo econômico. Quem compreende essa virada antes dos demais sai na frente.
Por que o Brasil demorou tanto para agir?
Durante décadas, o aterro sanitário foi tratado como solução definitiva para os resíduos urbanos. A lógica era simples: enterrar o problema. Mas os aterros têm vida útil limitada, ocupam áreas cada vez mais disputadas nas periferias das cidades e continuam sendo fontes significativas de emissão de metano, um gás com potencial de aquecimento global muito superior ao dióxido de carbono. O Brasil ainda não internalizou plenamente o custo real dessa escolha.
A ausência de uma política nacional estruturada de incentivo à recuperação energética contribuiu para esse atraso. De acordo com Odair José Mannrich, países como Alemanha, Japão e Suécia já contam com centenas de usinas em operação há mais de trinta anos. No Brasil, o debate chegou tarde às esferas estaduais e federais, e a regulamentação avançou em ritmo incompatível com a urgência ambiental. Apenas recentemente o sistema de contratação de energia proveniente de resíduos começou a ganhar contornos mais claros no marco legal do setor elétrico.
O que as usinas de recuperação energética realmente fazem?
Usinas de recuperação energética (URE) transformam a fração não reciclável dos resíduos sólidos em eletricidade e calor por meio de processos de combustão controlada, gaseificação ou pirólise. Não se trata de simplesmente queimar lixo, como muitos imaginam de forma equivocada. As tecnologias modernas incluem sistemas avançados de filtros e controle de emissões que tornam o processo ambientalmente seguro, atendendo a padrões rigorosos exigidos pelas legislações europeias, referência técnica utilizada por projetos como o de Barueri.
A engenharia aplicada a esse tipo de infraestrutura envolve conhecimento profundo de termodinâmica, gestão de resíduos, sistemas de controle ambiental e integração com redes elétricas locais. É nesse ponto que empresas como a Versa Engenharia Ambiental tornam-se fundamentais: a execução de projetos dessa magnitude exige equipes capazes de atuar nas intersecções entre engenharia ambiental, civil e energética, com domínio técnico sobre cada etapa da cadeia.

O papel do biogás e do biometano nesse cenário
Além das UREs, Odair José Mannrich ressalta que o Brasil, ainda que timidamente, tem avançado na produção de biogás e biometano a partir de aterros sanitários e estações de tratamento de esgoto. O gás gerado pela decomposição da matéria orgânica enterrada pode ser captado, tratado e utilizado como combustível veicular ou injetado na rede de gás natural. Algumas estações de tratamento já operam como verdadeiras biofábricas, convertendo o lodo gerado no processo em energia para autoconsumo.
O potencial combinado de recuperação energética de resíduos, biogás e biometano pode atrair, segundo projeções da Associação Brasileira de Recuperação Energética de Resíduos, centenas de bilhões de reais em investimentos nos próximos anos. É um mercado em formação, mas que já começa a desenhar suas primeiras estruturas de governança, financiamento e execução técnica.
As cidades com maior potencial para viabilizar projetos
Estudos técnicos indicam que as 28 regiões metropolitanas brasileiras com mais de um milhão de habitantes concentram cerca de 70% dos resíduos sólidos gerados no país. São justamente essas regiões que reúnem as condições básicas de escala necessárias para tornar economicamente viável a construção de uma URE; uma planta desse tipo precisa de pelo menos 500 a 800 toneladas de resíduos por dia para operar de forma eficiente.
Levando em conta esse contexto, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Fortaleza aparecem como as cidades com maior potencial imediato. A cidade de São Paulo, por si só, gera aproximadamente 10 mil toneladas de resíduos por dia, sendo um volume suficiente para sustentar múltiplas usinas. Tanto que os contratos de concessão municipal já preveem a construção de novas plantas com capacidade combinada de 60 MW. O ambiente regulatório começa a se alinhar, porém, como indica Odair José Mannrich, o que ainda falta é mais velocidade na execução.
O que vem depois: infraestrutura ambiental como política de Estado
O Brasil está em um momento de inflexão. A recuperação energética de resíduos deixa de ser uma curiosidade técnica e passa a integrar o vocabulário de gestores públicos, secretarias de meio ambiente e agências reguladoras. A pressão por destinos ambientalmente adequados para o lixo urbano, combinada com a necessidade de diversificar a matriz energética, cria uma janela de oportunidade que dificilmente se repetirá nas próximas décadas.
Para profissionais e empresas que atuam nesse campo, como Odair José Mannrich, o momento exige preparo técnico, visão sistêmica e capacidade de dialogar com financiadores, reguladores e comunidades. A infraestrutura ambiental do país não se constrói apenas com tecnologia. Ela se constrói com projetos bem executados, responsabilidade técnica e um olhar de longo prazo sobre os impactos que as escolhas de hoje deixarão para as próximas gerações.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
